Ano XXI nº 243 -

Edição 243 - 15/01/2018

   

 

 

Jericoacoara: energia ímpar. Até quando?

Por Bia Ferreira

 

Quase verão. Férias! Que bom. Cheguei ao Aeroporto Regional de Jericoacoara, no município de Cruz, no Ceará, dia 25 de novembro de 2017, sem ideia do que me aguardava na Vila de Jericoacoara. O trajeto de ônibus até o município de Jijoca de Jericoacoara foi rápido. Daí, a viagem prossegue de 4X4, por cerca de 28 km. Começam as aventuras.

A paisagem é impressionante. Bem mais areia do que vegetação. E os solavancos na 4X4 são razoáveis. Depois de subidas, descidas, curvas, passagens por pequenas lagoas e muito vento, chegamos à Vila de Jericoacoara. É de cair o queixo. As ruas não têm asfalto nem fiação elétrica atrapalhando o visual maravilhoso. A gente desce do carro e põe o pé na areia e só vai tirá-lo dela no dia de ir embora!

E eu levei vários pares de sandálias! Claro que a maior parte voltou para São Paulo sem tocar o solo de Jeri, como a vila é carinhosamente chamada por quem mora lá e por quem se apaixona por esse pedaço fantástico do nosso Brasil.

Uma pousada simples, bem perto da praia, foi o ponto de apoio nos quatro dias que fiquei nesse território sagrado da Natureza. O povo de Jericoacoara é de uma simpatia impressionante e acolhe tão bem os turistas que a gente se sente na casa de amigos. Para mim, 100% paulistana, é ótimo sentir essa acolhida, que não é muito comum aqui em Sampa. Na hora do café da manhã, alguns passarinhos vinham tomar café junto com a gente. Convivência agradável e natural.

Depois de pouco tempo caminhando pelas ruas principais e pelos becos a gente tem certeza de que Jeri está estruturada para os turistas, muitos deles estrangeiros. Há tantas lojas, restaurantes, pousadas, barracas de bebidas e sorveterias que a gente se perde entre tantas opções. Mas o que mais impressiona são as paisagens. Os passeios têm que ser feitos com buggy, quadriciclos ou 4X4. Com qualquer um desses veículos, a sensação é de que fazemos parte da natureza, das dunas, das praias. O vento bate no rosto trazendo areia e lembrando que estamos em um local em que a paisagem é transformada por ele, que muda as dunas de lugar incessantemente. O mar também sofre a influência desses ventos. Não é nada calmo! O sol mantém todo mundo aquecido e bronzeado. Não dá pra ficar sem protetor solar.

Andar de buggy com o Neguim e com o Novo foi uma aventura. Subir e descer as dunas dá uma sensação de liberdade, não sem aquele frio na barriga que não pode faltar! Uma delícia. Chegar até as lagoas – Grande, Azul e do Paraíso, entre outras - e apreciar vistas lindas e comidas muito gostosas também foi ótimo. Subir até a Duna do Pôr do Sol foi fantástico. Visitar a Praia da Malhada, com suas pedras coloridas também. Chegar até a Pedra Furada e constatar a força da natureza ao esculpir aquela rocha foi um presente. Andar pelas ruas cruzando com gente falando diversas línguas deu uma sensação de estar no mundo. Ir à praça e deparar com um jegue “assistindo” o show da noite representou uma realidade completamente diferente da minha e fez lembrar da modernização dos meios de transportes por aquelas paragens do Sertão Cearense.

Mas Jeri tem alguma coisa que vai além do que se pode divulgar em folhetos e sites de agências de turismo. Jericoacoara tem uma energia ímpar. Parece estar em um ponto do mapa do Brasil que tem uma vibração diferente, em que homem e natureza estão ligados mais intimamente. Não sei se é a areia, que faz com que a gente caminhe o tempo todo trocando energias com a Mãe Terra. Não sei se são as construções, que têm a altura limitada porque a vila está dentro do Parque Nacional de Jericoacoara, criado em fevereiro de 2002, e que permite que a gente vislumbre o céu de qualquer lugar. Não sei se é porque o vento parece murmurar o tempo todo nos nossos ouvidos. Não sei se é a instabilidade transmitida pelas dunas. Ou o céu, lindo demais. Ou o povo, simpático demais. Ou o ritmo da vida, diferente demais. Ou se é tudo isso, junto e misturado. Ou se Deus resolveu dar de presente para nós um pedacinho do céu.

E aí vem uma grande interrogação. Até quando nós vamos preservar esse pedacinho do céu?

Como essa Jericoacoara de energia e estrutura tão sutis vai sobreviver a um número cada vez maior de turistas que já têm acesso mais fácil desde a instalação do aeroporto em Cruz e agora, com voos de carreira? E como competir com os investidores estrangeiros – principalmente italianos – que estão instalando em Jeri pousadas magníficas em que os hóspedes chegam de helicóptero? Em 2016 foram cerca de 876 mil turistas. Como essa vila de ruas de areia, fiação subterrânea, com tratamento de esgoto e coleta seletiva vai dar conta de tanta gente que vai chegar até lá nos próximos anos? Como a população nativa vai conseguir manter as ruas e as trilhas nas dunas sem o lixo que os turistas insistem em largar para trás? Como o povo simpático desse paraíso vai conseguir manter as áreas protegidas da devastação do turismo predatório? Os bugueiros param os carros pra recolher latas e garrafas largadas por turistas irresponsáveis, mas não dão conta de manter todo o parque limpo. São 8.850 hectares.

Como deixar de lado um sentimento de preocupação com o futuro dessa vila, conhecendo o histórico de descaso com o meio ambiente que marca este nosso Brasil? Como ter certeza de voltar lá daqui a dez anos e encontrar a mesma Jeri? Será que os governantes vão ter o cuidado necessário com esse lugar tão lindo? Ou o Brasil vai deixar que Jeri seja destruída por um turismo predatório que só visa o lucro imediato?

 

O que será que vou encontrar da próxima vez que for até esse pedacinho do céu? O melhor é deixar as imagens e as sensações dessa viagem gravadas na memória e no coração. E pedir que cada nativo e cada turista mantenha Jericoacoara tão linda quanto ela é hoje, sem esquecer de cobrar dos órgãos governamentais uma postura moderna, inteligente e responsável com esse pequeno pedaço do paraíso.

 

*Bia Ferreira é jornalista formada pela Pontifícia Universidade Católica. É colaboradora na Editabr Comunicação e Editora, trabalhou na área de Comunicação da Companhia Energética de São Paulo, onde foi gerente entre 2013 e 2017.

 

 

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