Ano XXI nº 251 -
 
 

Paulo Capel Narvai é Cirurgião-Dentista Sanitarista. Especialista, Mestre, Doutor e Livre Docente em Saúde Pública. Professor Titular de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP). Autor de ‘Odontologia e saúde Bucal Coletiva’ (Ed.Santos) e de ‘Saúde Bucal no Brasil: Muito Além do Céu da Boca’ (Ed.Fiocruz) dentre mais de uma centena de obras científicas.

Artigo - Paulo Capel Narvai

Edição 251 - 27/09/2018

 

Há 65 anos, Baixo Guandu iniciava a fluoretação das águas no Brasil 

Rubem Braga já era um escritor conhecido e respeitado em todo o Brasil quando, sendo também jornalista, publicou no Jornal do Brasil, em 19 de julho de 1964, uma reportagem sobre a fluoretação da água em Baixo Guandu, com o objetivo de prevenir cárie dentária. Capixaba de Cachoeiro de Itapemirim, o escritor se interessou pela iniciativa da Fundação Serviço Especial de Saúde Pública (SESP) naquela cidade do seu estado, localizada às margens do Rio Doce, a 184 km de Vitória. Braga conta que estava em Baixo Guandu, a convite do SESP, no dia 31 de outubro de 1953, quando a experiência tivera início. A reportagem relata o que aconteceu com os dentes das crianças de 6 a 14 anos, moradoras do local, dez anos depois. Um dos mais brilhantes cronistas brasileiros de todos os tempos (a quem duvidar recomendo a leitura de "Um Pé de Milho"), Braga fora convidado por Paulo da Silva Freire, responsável pelo setor de odontologia do SESP, para o ato inaugural e recebera dele a versão preliminar do relatório técnico com os resultados obtidos na prevenção da doença entre 1953 e 1963. Seu entusiasmo com a eficácia da medida pode ser sentido logo na primeira frase: “Mais da metade das dores de dente que fazem sofrer as crianças das cidades brasileiras poderia ser evitada”.E explica os motivos que o levaram a crer nessa possibilidade, mesmo naquele contexto histórico.

 

Os professores Adauto Emmerich e Aprígio da Silva Freire registraram em livro ("Flúor e Saúde Coletiva: 50 anos de fluoretação da água no Brasil"), publicado pela EDUFES em 2003, muitos outros aspectos desse feito notável da Saúde Pública brasileira.Por dificuldades com minha agenda profissional não pude estar em Baixo Guandue em Vitoria, no período de 22 a 24 de outubro de 2003, quando o Cinquentenário da Fluoretação das Águas de Abastecimento Público no Brasil foi comemorado nessas cidades, com um conjunto de atividades organizado pelo Sindicato dos Odontologistas do Estado do Espírito Santo (SINODONTO-ES) e a Fundação Nacional de Saúde (FUNASA) do Ministério da Saúde em conjunto com a Prefeitura de Baixo Guandu e apoio da Federação Interestadual dos Odontologistas (FIO). Alguns dias depois dessas comemorações, recebi do colega Marco Manfredini, que participou da extensa programação, a “Carta de Baixo Guandu” acompanhada de fotos e documentos registrando o fato. Manfredini contou-me que estiveram em Vitória e Baixo Guandu, “alguns já bem velhinhos” – disse-me – “vários profissionais que foram os responsáveis pela adoção dessa medida em 1953, como Mário Chaves, Aprígio da Silva Freire, Flávio Antônio Luce e SzachnaEliaszCynamon.” ACartamenciona “os dados obtidos no Levantamento Epidemiológico de Saúde Bucal em Baixo Guandu realizado há menos de um mês, sob orientação técnica da Faculdade de Saúde Pública (FSP) da Universidade de São Paulo (USP), que confirmam os benefícios” da fluoretação da água. Num período de 50 anos – assinala o documento –, a prevalência de cárie em escolares de 12 anos de idade decresceu naquele município de 8,6 em 1953 para 2,2 em 2003, configurando um declínio da ordem de 74%.

A Carta de Baixo Guanduregistrouainda a importância de reconhecer que “o acesso à água é fundamental para a saúde” e que “a defesa da fluoretação se insere na luta pelo acesso universal de todos os brasileiros à água tratada e de qualidade e também pela universalização da coleta e do tratamento do esgoto e de resíduos sólidos”, mencionandotambém a “necessidade de que o Estado Brasileiro, em todos os seus níveis, assuma a garantia deste direito” preconizando que fosse rejeitada “a ameaça de privatização do setor de saneamento e os potenciais riscos advindos da adoção de tal orientação”.

 

Em 31 de outubro de 2018, Baixo Guanducomemora, com justificado orgulho de seu pioneirismo, os 65 anos de início da fluoretação das águas de abastecimento público. Para comemorar esse fato a FSP/USP, por meio do Centro Colaborador do Ministério da Saúde em Vigilância da Saúde Bucal – CECOL/USP, está disponibilizando aos interessados um arquivo digital contendo a íntegra da reportagem de Rubem Braga no Jornal do Brasil(para ler clique aqui).O material foigentilmente cedido ao CECOL/USP pela Profa. Dra. Maria do Carmo Matias Freire, da Universidade Federal de Goiás (UFG), a partir do arquivo pessoal do Prof. Dr. João Batista Gonçalves, da UFG, falecido em 2017. O conteúdo digitalizado corresponde a uma reprodução da reportagem original feita pela Seção de Educação Sanitária da Fundação SESP, do Ministério da Saúde, em 1964.É um presente que, 54 anos depois, Rubem Braga dá a Baixo Guandu e aos brasileiros.

Imagens cedidas: Arquivo Paulo Capel e Marco Manfredini


 

COMENTÁRIO
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C O M E N T Á R I O S    D O S    L E I T O R E S

Em 2003 comemoramos o Cinquentenário da fluoretação das águas em Baixo Guandu, aonde estive presente e fiz parte da comissão organizadora. Agradeço pela matéria. Nos tempos modernos a Odontologia tem que promover principalmente a PREVENÇÃO

Victor Hugo Ramirez Aguilar


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